O italiano e a sua relação com a comida
Quando você ouve falar em Itália, qual a primeira coisa que vem à sua cabeça? Tenho certeza que a esmagadora maioria das pessoas pensou em macarrão ou pizza (ou em Matteo e Giuliana, risos). E se você ainda não tinha pensado nisso, agora com certeza tem em sua mente um belo prato de macarronada. E se você for de família italiana, aquele feito pela nonna (avó)!
Eu acredito que essa associação que fazemos da Itália com gastronomia não é mera coincidência. Aqui no país da bota come-se muito e come-se bem, na minha opinião. E fala-se constantemente de comida. Especialmente quando se está à mesa: come-se falando sobre… comida! A relação do italiano com a comida é realmente forte, a ponto de causar brigas e discussões.
Quantidade
Para quem não está acostumado, a quantidade de comida que o povo aqui come é impressionante. Nós brasileiros também estamos acostumados com mesas cheias, mas aqui é diferente pelo fato de eles comerem antipasto (carpaccio, sopa, bruschetta, frios…), primo piatto (macarrão ou risoto), secondo piatto (carne, frango, peixe) com contorno (o acompanhamento, normalmente legumes e verduras) e sobremesa. Tudo regado a vinho e água. É verdade que não se come tudo isso todos os dias, mas em datas comemorativas prepare espaço no estômago. A minha primeira Páscoa em família aqui passei mal de tanta comida que não parava de chegar à mesa. Erro de principiante.
O famoso clichê da nonna que enche a mala do neto de comida antes deste partir para uma viagem não é bem um estereótipo. É muito comum (especialmente entre aqueles que moram longe da família) encherem a mala de artigos da região que nasceram ou feitos por alguém da família. Saudosismo? Sim, mas também um pouco de bairrismo.
Conservadorismo
O italiano é muito, muito conservador quando se trata de comida. A cozinha italiana é a melhor do mundo e, por favor, não ouse mexer na receita tradicional de modo algum! E até mesmo entre regiões e cidades por aqui existe competição. Por exemplo, macarrão à carbonara é feito com pancetta ou com bochecha? Talvez o único consenso é sobre o creme de leite: aí juntam-se todos contra!
O pior é que, muitas vezes, a discussão é causada porque a mesma coisa leva nomes diferentes dependendo de onde você está. Ou, ainda pior, quando coisas diferentes levam o mesmo nome! É uma confusão na minha cabeça, viu? Eu não sei quantas vezes eu já presenciei discussões desse tipo: esse prato chama assim! Não, isso é outra coisa!
Leia também: Culinária italiana: o que aprendi com ela
Existe o tipo de macarrão melhor para determinado molho, inúmeros tipos de arroz para risoto. O vinho e o queijo têm que ser italianos. E não se atreva a misturar queijo com peixe e frutos do mar!
Esse é um dos poucos pontos que causam atrito entre nós aqui em casa também. Como somos um casal intercultural, às vezes preciso lembrar meu amado que no Brasil e em outros países do mundo existem pratos fantásticos. E olha que ele é uma pessoa bastante aberta! Porém, vez ou outra nos desentendemos quando o assunto é comida. Seja porque eu estou cozinhando algo de forma diferente dele, ou porque proponho uma mistura que ele considera insólita. Mas qual casal não tem suas diferenças, né?
Qualidade
Mas uma coisa que merece muito destaque é a qualidade. Os italianos prezam pela comida local e de estação. Apesar de comerem muito macarrão e pão, sempre vai ter verduras e legumes frescos na mesa. Prezam as coisas feitas em casa, o macarrão caseiro, o pão com fermentação natural, queijo e salame do contadino (agricultor), ainda melhor se for conhecido da família. Aqui em casa temos sempre geleia feita pela minha sogra, mel do amigo do meu sogro, tortellini de uma amiga da avó, azeite das azeitonas que colhemos das oliveiras do jardim dos meus sogros, e assim vai.

Nossa compra semanal do agricultor local (acervo pessoal)
Uma outra coisa que aprendi a apreciar aqui são os produtos da estação. Claro que às vezes cansa comer as mesmas coisas, mas compensa pelo frescor. O acesso a artigos locais ou mesmo orgânicos é também muito mais fácil, seja por preço, seja por oportunidade. Toda cidade conta com feiras de agricultores locais (mercati a km 0, ou seja, feiras a km 0, o que significa que os produtos são produzidos localmente, viajaram o menos possível), que vendem seus produtos a preços módicos. E nos supermercados é sempre à vista de onde vêm os produtos (e os italianos são sempre mais apreciados do que os que vêm de outros países).
Sobre comida e quarentena
E já que estamos vivendo um período estranho, esse de pandemia, não posso deixar de assinalar algumas coisas interessantes que aconteceram por aqui em relação à comida nesses tempos de confinamento.
Acho que todos devem ter acompanhado nos noticiários sobre prateleiras de supermercado vazias, especialmente papel higiênico. Mas sabe o que mais desapareceu rapidamente de todas as prateleiras? Macarrão, farinha e fermento. Sim, o italiano não vive sem pasta e pane (macarrão e pão). Mas preciso colocar um comentário cômico. Mesmo em tempos como esse o povo aqui mantém sua preferência quanto ao tipo de macarrão: enquanto todos os tipos sumiram rapidamente nos primeiros dias, o penne lisce, um tipo de macarrão abertamente menos apreciado pelos italianos, permaneceu nas prateleiras.
A propósito desta falta de comida que se apresentou nos primeiros dias em alguns lugares, eu não presenciei aqui, e me parece que no geral foi só no início mesmo (exceto pelo fermento, que por ser uma coisa que precisa de tempo para ser cultivado – estou falando daquele fresco – não consegue ser reposto com tanta velocidade). Mesmo com todas as restrições existentes, o transporte e entrega de comida nos supermercados se manteve.
Quanto às feiras que mencionei acima, de agricultores locais, elas também ficaram um tempo sem acontecer. Mas pelo menos aqui na região esses produtores se organizaram de tal forma que estavam fazendo entregas em casa, de maneira mais eficaz que as grandes redes de supermercado. Por diversas semanas fizemos pedidos por telefone e recebemos direitinho em casa muitas verduras, frutas e ovos de um, e queijos, iogurte e leite de outro. Assim, nos mantivemos seguros em casa e continuamos nos alimentando bem e de forma saudável. Além, é claro, de fazer a nossa parte contribuindo para que esses pequenos produtores se mantenham nesse período tão delicado.
6 Comentários
Eu aprendi, estando aqui na Itália, a apreciar ainda mais a comida a Italiana, pois além do sabor é colocado muito amor nos pratos! Aprendi a não querer mudar nem uma receita, aprendi o que são frutas e legumes da estação (não temos isso no Brasil!) e a jamais falar que vc comprou algum alimento que não seja italiano e que viajou muito para chegar na sua mesa (já tive problemas com isso 😂😂😂) Viva a cozinha Italiana!!!
Muito bom o texto! Passa exatamente o que é o italiano com a comida de verdade! Vou compartilhar, já que muitos perguntam curiosos sobre a nossa alimentação aqui! Parabéns Amanda!
Amanda, meu marido é frances e tb ficou pasmo e contrariado quando eu quis servir vagem como acompanhamento para um peixe. Pra ele, vagem só com carne.
Tambem aprendi aqui a tal historia de frutas e legumes da estaçao. Acho que porque no Brasil sempre temos tudo localmente o ano todo.
Hahaha, que interessante essa história da vagem, Zandra! Cada cultura tem suas coisas mesmo, né?
Sou de família Italiana e adora a comida como,macarão, polenta com galeto, ravióli ,pizza e outros.
Meu sonho é conhecer a Itália um dia.
Este site é muito bom porque nos trás a Itália até nós. Adorei.
Nós temos mesmo muita influência da culinária italiana, visto a alta imigracao italiana, né? Espero que você venha conhecer um dia, é um lindo país!